Fora do Tempo - FAQ
Por que o último capítulo se chama “Inepílogo”?
Durante o livro, em pelo menos três ocasiões, eu uso o
prefixo “in” para criar palavras: Bryan diz a Anthony que ele está na zona de “inperigo”,
Anthony pensa que Samantha o está “insubestimando”, Bryan diz que Oliver Sax é “inesperto”...
Em todas estas passagens, fica claro que o prefixo “in”, no livro, significa “o
contrário de”. Essas brincadeiras servem para fixar na mente do leitor a ideia
de que um “inepílogo” é “o contrário do epílogo” – portanto, seria o Prólogo –
mas não poderia colocá-lo no início do livro, por razões óbvias...
Então, o que significa o final?
Significa que, na realidade, Anthony é um sujeito comum, que
estava saindo de um metrô quando sofreu um atentado: um tiro disparado por um
desconhecido, que atingiu sua cabeça e despedaçou seu cérebro, e entrou em coma.
A partir daí, a parte restante do cérebro de Anthony cria uma realidade
paralela, um delírio, de forma a tentar se manter viva. Todo o livro consiste
em uma história criada durante o coma de um paciente terminal.
Por que os personagens são tão
estereotipados?
Porque são todos criados dentro da mente de Anthony, a
partir de estereótipos que ele mesmo idealizou: Bryan é um guitarrista e
astrofísico de cabelos cacheados e nariz adunco – tal qual o guitarrista Bryan
May, da banda Queen. (Há inclusive, um trecho onde isso fica explícito: quando
Anthony explica sobre a Rainha de Maio, trecho da música Stairway to Heaven,
Oliver Sax responde em inglês: “Bryan? Rainha de Maio?” – Bryan? May Queen?)
Samantha é um estereótipo de um sex Symbol (inspirada em Marilyn Monroe),
etc. O romance entre Anthony e Samantha é propositalmente artificial, para indicar,
subliminarmente, que é uma criação, não real.
O que são os trechos em formatação
diferente (negrito, formatação itálica e centralizada)?
Todos esses trechos são estímulos externos ao coma: o “bip-bip-bip” (que ora é o despertador, ora a cafeteira ou mesmo o detector de sinais do aeroporto) é na verdade o monitor de sinais vitais; as picadas de abelha e beliscões são as inserções de agulha, trechos de conversas entre os médicos, enfermeiras, família, etc. são incorporados à história (ao delírio). Estudos mostram que a mente tenta adaptar estes estímulos externos à realidade criada dentro do delírio, como parte da história que está sendo forjada. Também os picos de adrenalina que o personagem tem em momentos específicos e choques - como ao beijar Samantha pela primeira vez, ou quando encosta no holograma dela na sua visita ao futuro - são reflexos imaginados para reações de reanimações no paciente real.
Afinal, o que significa a palavra “Coma”
no livro?
“Coma” é frequentemente citada no livro, e, muitas vezes,
como um estímulo externo, como explicado acima. No cérebro de Anthony, que não
quer encarar o verdadeiro significado da palavra, “coma” é entendido ora como
uma ordem para comer, ora como o intervalo entre os sons.
O que representam os personagens Bryan e
Samantha?
Metaforicamente, ambos são os hemisférios cerebrais de
Anthony. Bryan é o lado esquerdo, lógico, racional. Samantha é o lado direito,
emocional. Esta é a razão pela qual eles nunca se encontram no livro (não
fisicamente). Bryan morre na metade do livro (o lado esquerdo do cérebro de
Anthony, que foi afetado pelo tiro), e, a partir daí, o livro fica
propositalmente mais caótico (é o lado direito tentando suprir a falta da massa
cerebral perdida). Estudos feitos pelo renomado neurologista e psiquiatra
Oliver Sacks (autor de diversos livros sobre funções cerebrais em pacientes em estado
de letargia) indicam que, ao perdermos parte do nosso cérebro, a massa cerebral
restante procura formas de compensar essa perda.
Como tudo está sendo criado em torno do cérebro humano e da perda de massa cerebral, há uma boa justificativa para a inserção do presidente americano John Fitzgerald Kennedy, em diversos trechos do livro, dada a forma de sua morte.
Opa! Oliver Sacks? Então este é um
personagem real?
Sim, o personagem Sax (que é foneticamente igual, na
pronúncia, ao sobrenome do neurologista) é inspirado em uma figura real. Oliver
Sax tem um papel fundamental neste livro: ele é deliberadamente estereotipado
de uma fora que pretende “chocar” Anthony, é um elemento de confronto. Isso
porque as ideias de Sacks vêm de encontro à tentativa de Anthony (o paciente em
coma) de recriar um mundo fictício para continuar vivendo. O personagem Sax é
aquele que aparece após a morte de Bryan (o lado esquerdo do cérebro) para explicar
que aquilo tudo é fruto da imaginação. Por isso, é um elemento de desconforto
(tanto visual quanto nas atitudes) para o delírio de Anthony. Muitas frases do
personagem foram extraídas ou adaptadas de livros do famoso pesquisador.
E quanto às músicas e ao filme?
“As Time Goes By” é uma música famosa por ter sido trilha sonora de um clássico do cinema: Casablanca, filme de 1942 com Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann, que é citado durante o livro. Há algumas curiosidades sobre este filme: O filme gira em torno de um casal que, na última cena, se separa; ela voa de volta para a França e ele permanece em Marrocos. Outra coisa, mais importante: Uma das frases mais famosas atribuídas ao filme é: “Play it again, Sam”, supostamente dita por Ingrid Bergmann ao pianista do hotel (o tal “Sam”), para que tocasse novamente a música do casal. O curioso é que esta frase NÃO EXISTE NO FILME! Ou seja: a frase mais famosa do filme, que nos remete a ele, nunca foi dita, e é uma ilusão. No livro, a frase é dita três vezes em inglês: no começo, por Hartmann a Samantha, durante a reunião (para que ela reproduzisse novamente a gravação); no meio, por Sax, a Samuel (para que ele tocasse novamente a música que estavam ensaiando); e no fim, por Thomas, na ponte de Londres, pedindo que a irmã Samara lhe jogasse a bola de volta. Isso é uma metáfora para explicar que o livro inteiro é uma grande ilusão, tal qual a frase no filme.
As falas de Bryan no pub, sobre o tempo, são trechos da música "As Time Goes By". As falas de Jimi Hendrix são extraídas de músicas do compositor. O Capítulo 15 traz textos de músicas de Hendrix e de "Stairway to Heaven", intercaladas pelos pensamentos do personagem.
Há algum problema com “Stairway to Heaven”?
Não há problema algum com ela, exceto o fato de ela falar
sobre uma escadaria para o céu que, além de ser uma metáfora para “a morte”,
também traz à lembrança os últimos momentos de lucidez de Anthony, antes do
tiro. Esta música é uma das maiores composições da história do rock.
Bryan, então, tem esse nome devido a Bryan
May, e Oliver Sax tem esse nome devido a Oliver Sacks. Há mais alguma referência
quanto aos nomes?
Sim, há muitas!... Samantha, Samuel e Samara possuem este
nome para causar o efeito da frase explicada acima (todos começam com “Sam”).
Fausto herda este nome do clássico de Goethe – e, inclusive, a ideia de que
Anthony gostaria de entregar a sua vida para viver um único momento de
perfeição eternamente (ideia que aparece depois da sua noite de amor com
Samantha) vem do Fausto de Goethe. Ivana herda o nome de Ivan Karamazov (de “Irmãos
Karamazov”), e todo o capítulo 21 foi concebido para parecer com o trecho “O
grande Inquisidor”, mas invertido.
Os personagens são, então, inspirados em
pessoas “reais” no livro? Quem são Angela e Lisa?
Na vida real de Anthony, Angela e Lisa são sua esposa e
filha, que estão sempre ao seu lado durante o coma. Elas possuem uma
importância menor na “história criada” porque, ali, Anthony deseja recriar sua
história e ser quem ele sempre quis ser – famoso, rico, admirado (como Bryan) e
amado por lindas mulheres (como Samantha). Da mesma forma, a Samantha real é a
enfermeira que está cuidando dele no coma, assim como William é o seu médico.
Hartmann é o senhor que atirou nele; por isso, aparece como vilão, é um
elemento que tenta atravessar a vida de Anthony (lhe roubando a empresa e
tentando roubar Samantha) e morre no meio do livro como uma vingança (e é por
isso que o personagem diz, duas vezes: “Eu te matei, você me matou. Estamos
quites”).
É por isso que, após a morte de Bryan (o
lado esquerdo do cérebro), o livro passa a ficar caótico?
Sim, é quando o lado direito (pouco linear) tenta suprir a
falta do hemisfério esquerdo que a história começa a se tornar mais caótica,
com coisas nonsense acontecendo. O ritmo do livro também fica mais
acelerado, indicando a morte iminente do seu protagonista.
Os conceitos de música apresentados no Capítulo 0 são verdaddeiros?
Sim, toda a teoria musical presente no livro é verdadeira, inclusive as frequências do coma e seus resultados logarítmicos. Também é verdade o que é dito sobre a igreja em Dresden, sobre os cursos das faculdades de Glasgow e de Belfast.
Há mais coisas para descobrir no livro?
Oh, sim! Há muito mais pegadinhas, easter eggs, referências...
O livro foi escrito a partir das camadas mais profundas de entendimento, e foi
sendo trazido à superfície com uma narrativa que, de certa forma, esconde tais
camadas abaixo dela. Fique à vontade para ler, reler, criar suas próprias
teorias e comentar aqui!
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